Prefácio.
Quantas pessoas estão realmente dispostas a gastar a vida? Quantas pessoas morreriam de amor? Trocariam o emprego para ganhar menos? Aceitariam com resignação as consequências dos seus atos? Delatariam suas feridas sem nenhum pudor? Se entregariam total e completamente sem nenhum medo? esperam sempre mais correndo o risco de nunca receber?
A maior parte dos seres humanos tem uma estreita zona de conforto, limitada capacidade de superação e, consequentemente, um enorme potencial para surtos e loucuras, receiam pisar em territórios desconhecidos e usam sempre os mesmos caminhos esperando resultados diferentes.
Estamos diante de uma massa frustrada que apenas existe, sobrevive, caminha forçosamente para a morte, poucos são os que se recusam, poucos são os que reclamam e se angustiam, poucos são os que deixam a vida cair em cada milímetro do seu corpo sofrendo e gozando multuamente, maldizendo e bendizendo a cada dia de sol, poucos tem a eterna insatisfação propulsora que expande a vida, poucos se permitem ter a alma que ela tem.
As pessoas não estão definitivamente divididas em boas ou más, eu penso que seria melhor definição dividi-las em viventes e sobreviventes, ela não queria a terrível limitação de quem joga o poder da própria felicidade nas mãos alheias, de quem não quer ser responsável pelo sucesso ou fracasso da tentativa de viver, ela queria ser responsável, ser a autora seja lá de que história fosse ser escrita. Era essa sensação de poder que dava vazão à vida, que fazia a diferença entre ter ou não ter tesão, vontade de viver. Assumir o risco da própria existência, estar dentro do jogo arriscado a levar todas as pancadas e também receber todos os benefícios, era isso que ela queria, era isso que vislumbrava por segundos antes da cegueira usual tomar-lhe novamente os olhos deixando diante de si aquela maldita angústia dos meros sobreviventes.
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